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Uma atividade da FLIP para a música e para a língua

A apresentação para cativar presenças no passado dia 26 de agosto na Feira do Livro Infantojuvenil em Português (FLIP), em Estocolmo, era: cantar faz bem a tudo! Cantar na nossa língua, ainda mais. O que menos importa é cantar bem, porque a música partilhada entre pais e filhos é não só divertida, como pode ser muito didática.

A ideia, a preparação e a atividade em si tiveram mais de empirismo do que de academia. Dito isto, vale a pena acentuar, porém, que há vários estudos a comprovar a relevância da música na aprendizagem de línguas – entre as chamadas letras das canções, o ritmo, a rima e a pronúncia, todos são elementos que contribuem para aprender.

 

A canção, o afeto, a língua

Foi, no entanto, uma recordação musical da infância que me levou a idealizar e planear a atividade da FLIP. Um jogo que tantas vezes joguei com a minha mãe, no carro, a caminho de uns destinos quaisquer que parecem sempre demasiado distantes para uma criança.

A regra era partilhar uma canção, primeiro em uníssono (em coro), depois uma palavra (ou verso) para mim, outra palavra (ou verso) para a minha mãe, e assim sucessivamente – Ora Agora Cantao Eu, Ora Agora Cantas Tu!
A favorita vinha de um programa de televisão da altura, Arca de Noé (registos em vídeo não encontrados ainda, infelizmente).
”Eu sou boa de nome, sou uma serpente boa,
Se fosse mais comprida, ia do Porto a Lisboa.”

Cantar – mesmo brincar com – a canção estimulava vários aspetos: a memória, a compreensão do conteúdo (literal ou figurativo), a consciência da palavra enquanto unidade diferente de outras, o afeto (entre duas ou mais pessoas que fazem do momento cantado o seu código secreto).

Para a atividade da FLIP, convidei crianças e pais a experimentarem o jogo que eu jogava com a minha mãe. Depois dos primeiros versos, a melodia está pronta a aceitar o que a imaginação quiser, por exemplo, outros animais com outras características:
”Eu tenho Índia no nome, sou da Índia um porquinho,
Sou bastante pequeno e também muito fofinho.”
ou
”Sou alemão de nome, sou um pastor alemão,
Corro, ladro e brinco. Sou amigo, sou um cão.”

 

O afeto e a disponibilidade para aprender vocabulário

Já adulta, na Suécia, vivi um ano com uma família em que a mãe, a Birgitta, é educadora do ensino especial e uma pessoa extremamente musical. Depressa descobri que, em sueco, ela conhecia canções para todas as ocasiões e que, além disso, podiam encadear-se umas nas outras, como, de resto, os acontecimentos numa narrativa. Ou seja, quase trinta anos depois do jogo com a minha mãe, eu ”brincava” também com a Birgitta às canções, para aprender vocabulário. E o afeto que isso gerava facilitava a minha disponibilidade para aprender sueco, memorizar palavras e pronunciá-las corretamente. E ainda havia o encanto de as cantigas se poderem ligar umas às outras, se a imaginação quisesse.

 

Mais ideias para cantar e contar, improvisar e ativar vocabulário

Foi com esta memória presente que pensei que o cão da canção anterior podia ser o mesmo cão que dá a dentada na bola do Manel – aquele dos tempos do José Barata Moura (link no final deste post). E estaria, assim, começada a estória para mais uma melodia:
”O Manel tinha uma bola que rolava pelo chão,
Pela calçada ela rebola, deu-lhe uma dentada um cão.

Olh’a bola, Manel, olh’a bola, Manel,
Foi-se embora, fugiu,
Olh’a bola, Manel, olh’a bola, Manel,
Nunca mais ninguém a viu.

Aqui, cabe o nome do Manel (do original), mas podem caber outros, como João ou Zézé. Também pode ser a Maria, e ela pode ter perdido uma bola ou qualquer outra coisa que as crianças ou os pais/professores quiserem experimentar. Por exemplo:
”A Maria tem um jogo que lhe deram no Natal
Perdeu peças, uma ou duas, três ou mais, mas não faz mal.”
… (Refrão do Manel ou outro)

De recordar que estes versos podem começar por ser cantados em uníssono por meninos e adultos, mas a dinâmica ”Ora Agora Canto Eu, Ora Agora Cantas Tu” tem sempre aplicação. Ao usá-la, tanto o adulto como a criança é livre de improvisar e alterar vocabulário – estará então a ativar língua.

 

O pé do sapo e o sapato da barata

Só o subtítulo já tem aliterações que bastem para ter vontade de bater palmas e cantar, não acham?

Ainda a pensar no Manel, não é impossível que a narrativa e a bola dele avancem para uma lagoa. Com isso, a bola vai cruzar-se com um sapo que tem preguiça de fazer a sua higiene. Logo aqui se abre uma porta para discutir com os meninos a importância de alguns hábitos quotidianos. Mas, neste caso, nem vamos por aí.

”O Sapo não lava o pé” ou o que ”A Barata diz que tem” (links no final deste post) são dois clássicos que abrem espaço à imaginação e à ativação de língua. Quem diz sapo, diz outros animais ou mesmo personagens humanas; quem diz pé, diz outras partes do corpo, ou até roupa. Por exemplo:
”O Cadú não lava a meia,
Não lava porque não quer.
Ele tem sabão em casa,
Não lava a meia porque não quer.
Mas que chulé!”

Deixe os alunos/os seus filhos experimentarem com o vocabulário que conhecem. Deixe acontecer os textos inventados, mesmo que absurdos, porque provavelmente vão fazê-los rir, e isso contribui para derrubar alguma resistência que possa existir para com a língua.

Na sala de aula, para os meninos que sabem ler, o professor pode ter, como alternativa, pequenos cartazes coloridos com as palavras ou versos que deseja que eles cantem. Ou deixe que eles mesmos os façam e que ”dirijam o coro” dos colegas com as suas criações.

Cantar e falar português faz bem a tudo

Pode acontecer o professor ou os pais terem um especial à vontade com a música e acharem que a vida com ela é mais divertida. Se assim for, há muitos outros momentos que podem ser experimentados a cantar.
Em casa, algumas ações rotineiras podem ser vividas com melodia e o poder da improvisação. O pedido para pôr a mesa, a insistência para fazer os trabalhos de casa ou o bater da mistura para panquecas, tudo pode ser feito com a melodia de ”Brilha, brilha lá no céu” ou de um clássico mais elaborado da Broadway. Há que tentar! Faz bem. E se começar a cansar… ”Ora agora não cantas tu nem eu” – vamos só falar português!

 

Canções para este post:

 

Outras sugestões:

Colecção “Galo Gordo” e “A Casa Sincronizada”, de Gonçalo Pratas.

 

Vera Guita é professora desde 2004, na Suécia desde 2011, e conta com experiência desde o primeiro ciclo a cursos para adultos. Tem vários interesses, entre eles a música, que tenta colocar em diálogo com o trabalho na escola. Não pôde recusar a colaboração com PortCast e este blogue, porque é um projeto necessário à muito querida Língua Portuguesa e um bom meio para refletir sobre aprender e ensinar: enfim, sobre comunicar.