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Uma reflexão sobre curiosidade e esperança na aprendizagem

Por estes dias, ouvi uma frase que me intrigou: Há uma linha fina entre o desconhecido, a curiosidade e a esperança. Achei-a repleta de sentidos, mas ainda não a descodifiquei por inteiro. Talvez queiram ajudar-me, neste meu primeiro post.

Vejo uma das interpretações possíveis desta espécie de máxima dentro do universo com que muitos dos leitores e eu trabalhamos: a aprendizagem. É conscientemente que não escrevo ensino, porque ensinar parece-me ser, mais do que tudo, uma aprendizagem constante. Então, em que é que eu vejo desconhecido, curiosidade e esperança espelhados na realidade de professores e alunos?

 

Como assim, o desconhecido e a curiosidade?

Em primeiro lugar, somos desconhecidos uns dos outros até ao primeiro encontro dentro da sala de aula – e não raras vezes, até o primeiro encontro está longe de ser suficiente para tornar o desconhecido em conhecimento. Por outro lado, há o não-conhecer, no sentido de não se saber, à entrada na sala de aula, quão mais se vai saber à saída. Em qualquer um dos casos, o desconhecido deveria ter o poder de gerar curiosidade.

A curiosidade é, assim, íntima aliada do não-conhecer. No entanto, nos últimos anos em que tenho partilhado salas de aula com jovens alunos, o que sinto é uma ausência de curiosidade que me preocupa. Sentem o mesmo?

Talvez seja bom esclarecer que, de momento, trabalho sobretudo no ensino secundário e que a Língua Portuguesa não é a minha disciplina habitual. Aliás, se usar alguma palavra em português, por brincadeira, é para testar se os alunos reparam n’ ”o intruso” e se estão realmente atentos ao meu discurso que, de resto, é em inglês. De facto, os jovens que encontro, entre os 15 e os 19 anos, quase precisam de um exercício, que eu ouso adjetivar de teatralizado, de perguntas e réplicas: Tu sabias que…? Se a resposta for não, então é possível que tenhamos conseguido levantar uma ponta do véu da curiosidade. Mas a resposta pode, simplesmente, ser ausência de resposta, ou seja: Não sabia que… e também não estou particularmente interessado em passar a saber. Não me enganas com essa.

 

Mudar a curiosidade e alimentar a esperança

Quererá isto dizer, porém, que a curiosidade não desapareceu, apenas mudou e tem de ser abordada de outras formas, com a curiosidade dos próprios professores? É aqui que entra a esperança. Ou o oposto. Eu costumo, na verdade, sentir algum desalento quando o desconhecido teima em não dar lugar à curiosidade. E sabemos que há vários fatores que contribuem para isso, entre eles algum uso mal direcionado das tecnologias da informação. No entanto, parece-me que o que se deseja é que perdure sempre a esperança de que o trabalho do professor, desde que flexível e disposto a caminhar com os tempos, continua a ser uma das melhores hipóteses de despertar e alimentar curiosidades e vontades de conhecer. Assim, manter-se-á também a esperança dos mais novos de aprender e de avançar, de desconhecido em desconhecido, até ao saber mais.

Acham bem se eu concluir que desconhecido, curiosidade e esperança são três ferramentas fundamentais do nosso trabalho? Fica, porém, uma conclusão insuficiente, já que a frase intrigante continua com muitas mais camadas por explorar.

Enquanto escrevia os parágrafos anteriores e ia pensando se me ficava por um texto generalista ou se faria mais qualquer proposta, aconteceram curiosas associações de ideias.

 

 

Plano 1- Com crianças

1) Peça aos seus alunos que discutam o sentido do ditado popular A curiosidade matou o gato. O que acham que significa? Concordam com o seu significado? Porquê?

2) Pergunte-lhes o que lhes desperta a curiosidade e porquê.

3) Peça-lhes que perguntem em casa sobre o que deixa os adultos curiosos. Sugira também que recolham mais alguns ditados populares e que discutam o seu significado em família.

4) Recolha o contributo dos alunos, tentando chegar uma definição conjunta do que é a curiosidade e do que a provoca, e exponha em cartolina(s).

 

Plano 2 – Com crianças a partir dos 10 anos e com jovens

1) Peça aos seus alunos que discutam o sentido do ditado popular A curiosidade matou o gato. O que acham que significa? Concordam com o seu significado? Porquê?

2) Pergunte-lhes o que lhes desperta a curiosidade e porquê.

3) Leve-os a discutir se a curiosidade terá mudado com o passar do tempo – porquê? Peça-lhes exemplos, tais como:
– O que terá sido a reação curiosa sobre o fogo, como fazê-lo e para que podia servir?
– O que pensariam as pessoas na época dos Descobrimentos – as que partiam em viagem para o desconhecido, as que ficavam em Portugal à espera de ouvir estórias sobre o desconhecido, e até os povos nativos que viam chegar embarcações estranhas, pessoas com trajes diferentes e objetos novos?

4) Em pedaços de papel escreva palavras (uma por papel) que, em conjunto, formam ditados populares (se possível, dentro da temática da curiosidade e sabedoria – O saber não ocupa lugar. A ignorância é a mãe de todas as doenças. Quem não sabe é como quem não vê. Burro velho não aprende línguas). Peça aos seus alunos que combinem as palavras para obterem as frases corretas.

5) Os alunos discutem o significado e relevância dos ditados.

6) Recolha os vários contributos dos alunos, tentando chegar uma definição conjunta do que é a curiosidade e exemplos do que a provoca. Proponha-lhes fazer um pequeno livro sob o título Curiosidade e outras curiosidades, onde incluirão os resultados da recolha.

7) Peça agora a cada aluno uma lista de cinco ou mais palavras polissilábicas que lhes sejam familiares. Desafie-os a desconstruir os vocábulos por sílabas e a resconstruí-los numa ordem diferente. Proponha que levem os vocábulos inventados para casa e que testem a curiosidade da família pedindo significados para as ”novas palavras”.
– Também os resultados desta atividade podem ser incluídos numa secção do livro.

 

Plano 3 – Com jovens e/ou adultos

1) Peça aos seus alunos que discutam o sentido do ditado popular A curiosidade matou o gato. O que acham que significa? Concordam com o seu significado? Porquê?

2) Pergunte-lhes o que lhes desperta a curiosidade e porquê.

3) Promova a discussão:
– A curiosidade terá mudado com o passar do tempo – porquê? Peça-lhes exemplos, tais como:
– O que terá sido a reação curiosa sobre o fogo, como fazê-lo e para que podia servir?
– O que pensariam as pessoas na época dos Descobrimentos – as que partiam em viagem para o desconhecido, as que ficavam em Portugal à espera de ouvir estórias sobre o desconhecido, e até os povos nativos que viam chegar embarcações estranhas, pessoas com trajes diferentes e objetos novos?
– Que fatores podem afetar a curiosidade e a vontade de saber, sobretudo entre crianças e jovens hoje em dia?

4) Fazendo uso das ideias discutidas e outras, peça aos alunos que escrevam um texto sobre o que lhes desperta curiosidade.

Voltarei ao tema curiosidade, palavras difíceis e aprendizagem, mas mais não digo, para vos deixar curiosos!

 

Créditos

Fotos: Catarina Bandeira

 

Vera Guita é professora desde 2004, na Suécia desde 2011, e conta com experiência desde o primeiro ciclo a cursos para adultos. Tem vários interesses, entre eles a música, que tenta colocar em diálogo com o trabalho na escola. Não pôde recusar a colaboração com o PortCast e este blog, porque é um projeto necessário à muito querida Língua Portuguesa e um bom meio para refletir sobre aprender e ensinar: enfim, sobre comunicar.

 

Catarina Bandeira é desde muito cedo apaixonada por Fotografia, tendo concluído a Licenciatura na Universidade Lusófona, em 2015. Após estágio na Agenda Cultural de Lisboa, entrou, ainda nesse ano, ao serviço do Estúdio Fotográfico Studio8A. Aqui realizou trabalho de estúdio, fotografou eventos e orientou workshops de fotografia e Photoshop. É fotógrafa independente.