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Lena Léon, professora de Apoio Escolar em Língua Materna na Suécia, escreve sobre o valor e possíveis usos de glossários na aprendizagem de uma língua estrangeira por alunos do Ensino Básico e Secundário naquele país.

 

A Utilização de Glossários na Aprendizagem de uma Língua Estrangeira

Para nós, adultos e professores de língua estrangeira, criar glossários quando se aprende uma língua nova é evidente. Pelo menos, no início.

Quando trabalhamos com alunos sem um percurso escolar prévio, é bastante fácil identificar as suas necessidades e encontrar a melhor forma para realizar o apoio escolar (Studiehandledning em sueco; ver artigo relacionado aqui.) Neste contexto, os glossários surgem de uma forma natural: com imagens, desenhos, setas para aqui e para ali.

Simultaneamente, partimos do princípio que os alunos que frequentaram a escola anteriormente sabem e conseguem fazer significativamente mais do que aquilo que talvez corresponda à verdade.

Nas aulas de apoio, só estamos com eles entre 30 a 60 minutos por semana e, mesmo que tenhamos feito parte do processo de mapeamento de conhecimentos realizado no início da vida escolar na Suécia, há muitos assuntos àcerca dos quais não sabemos nada.

Um desses assuntos pode muito bem ser os glossários. É fácil ficarmos com a impressão de que o aluno sabe criar e usar glossários, sobretudo se ele parecer fazer progressos na aprendizagem da língua, mas…

 

É PRECISO ENSINAR A USAR GLOSSÁRIOS!

 

É necessário ensinar os alunos a usar glossários, a adaptar a sua forma e uso às necessidades de cada um, e sobretudo temos que aliciar os alunos a trabalhar desta forma, tornando-los parte ativa do processo, com uma palavra a dizer sobre esta forma de trabalho.

O que entendo por ”com uma palavra a dizer”? Imaginemos que sugerimos aos alunos, de uma forma bonita e inspiradora (do nosso ponto de vista), que podemos ter um caderninho no bolso das calças com todas as palavras que ouvimos nos corredores, nos balneários, durante as lições ou nas lojas; que podemos pegar no bloco quando estamos no autocarro (em vez de ouvir o Eminem, haha!) ou quando estamos na sala de espera do dentista. Os alunos dizem que sim com a cabeça e vão-se embora. E nunca mais tornam a pensar no nosso caderninho.

Agora imaginemos que um aluno acabou de nos falar sobre uma situação difícil por que passou. Provavelmente, a situação foi difícil porque, entre outros motivos, o aluno não domina a língua o suficiente para perguntar/responder/se incluir/se deixar incluir, ou seja, reagir de forma adequada. Talvez não se atreva a reagir, por receio de ser mal entendido ou ridicularizado.

 

É AQUI QUE PEGAMOS NO CADERNINHO…

 

E concebemos diferentes respostas possíveis: testamos produzir os sons, fazemos de conta, brincamos com palavras, experimentamos diferentes situações, mudamos os intervenientes, entre outras.

E, de repente, enchemos uma folha com palavras que o aluno até conhece, mas cujo uso precisa de treinar. E no meio de todas essas frases é fácil assimilar uma palavra nova. E mais uma. E mais outra.

O aluno está interessado e sente-se seguro. Sabe que na próxima vez que nos vir, pode aproveitar para nos fazer perguntas sobre palavras e expressão que são mais relevantes para um adolescente do que todos os termos escolares do mundo.

 

 

Que Tipo de Glossário Utilizar?

Aqui podemos aproveitar e conversar com o aluno (e é isto que eu entendo quando digo que o aluno tem uma palavra a dizer) sobre a forma como podemos utilizar glossários nas diferentes disciplinas. Devemos ter todos os glossários no mesmo caderno ou ter um caderno por disciplina? Devemos ter os glossários no telemóvel, no ipad, no computador, na nuvem?

E assim temos uma conversa em que o aluno reflete sobre a forma como aprende novas palavras: é mais fácil escrever todas as palavras isoladamente ou inseridas numa frase? Quero ouvi-las?

Se criarmos um glossário para um capítulo de um manual, faz sentido instalarmos uma ferramenta de leitura no telemóvel do aluno. Senão também podemos pedir ao professor da disciplina em questão para gravar o glossário. Eles fazem-nos de bom grado.

Podemos ainda utilizar glossários prontos, como por exemplo o que Tobias Berger e os seus colegas da Pedagog Värmland criaram e traduziram para várias línguas. Pode descarregar os glossários aqui: Skolord – ämnesord på olika språk.

 

 

Como Utilizar os Glossários?

Como sempre, é necessário adaptar a forma de trabalho aos alunos. Alguns talvez prefiram ter as listas imprimidas enquanto outros preferem procurar as palavras de que necessitam e escrevê-las. Seja como for, há uma série de fatores que podem aumentar o espectro de uso dos glossários.

Dependendo do nível de conhecimentos do alunos, podemos verificar se o aluno consegue inferir o significado da palavra em causa:
– pelo contexto;
– pela categoria da palavra;
– com a ajuda de outras palavras na frase;
– dividindo a palavra;
– procurando a palavra no dicionário.

O que significa a palavra na língua materna do aluno? Como é que o aluno a utilizava no seu país? O aluno gosta da palavra? A palavra soa bem na sua língua materna e em sueco? Há uma grande diferença nas duas línguas? Há alguma música em que a palavra seja usada? É fácil encontrar palavras que rimem com ela na língua materna do aluno ou em sueco?

Enfim, continuamos a trabalhar para motivar o aluno a:
escrever a palavra nova num outro contexto;
fazer alterações na frase de forma a que a palavra mude de lugar;
transformar afirmações em perguntas ou ordens, levando em consideração a ordem dos elementos da frase;
escrever novas frases utilizando a palavra.

É preciso não esquecer que o aluno deve aprender sempre um substantivo com o respetivo artigo!

E caso a palavra tenha vários siginificados, organizá-los num mapa mental, por exemplo.

 

 

Resultados

É possível que o aluno não esteja acostumado a dedicar tanto tempo a uma única palavra e talvez não tornemos a trabalhar desta forma, mas é tempo bem investido. O medo pelas palavras diminui e os benefícios aumentam. A nossa paixão pela língua e o nosso empenho contagiam o aluno e tornam a vida com palavras desconhecidas menos pesada.

Os glossários podem também ser utilizados como Trabalhos Para Casa entre duas aulas de apoio (Studiehandledning). Aos alunos que se queixam constantemente que o sueco é muito difícil e impossível de aprender podemos, por exemplo, mencionar que é possível aprender 1 a 5 palavras por semana. Deste modo, as aulas de apoio assumem um caráter mais sério, podendo o professor por elas responsável exigir tantos resultados como os professores das disciplinas.

Há, além disso, mais um motivo para motivarmos os alunos a trabalharem com glossários: o facto de o seu uso ser permitido nas Provas Nacionais. Desde que não seja uma lista explicativa e desde que não haja desenhos, setas ou outros sinais explicativos, os alunos podem utilizá-los.

 

 

Lena Léon é professora de Língua Materna e professora de Apoio Escolar em Língua Materna, na Suécia. Com formação inicial como professora de Matemática e Música, interessa-se particularmente por línguas e desenvolvimento curricular, áreas que estudou posteriormente. Atualmente é förstelärare (professora com um cargo de destaque) e líder de equipa na Unidade Multicultural do concelho de Sigtuna. Escreve sobre Apoio Escolar em Língua Materna neste blogue.