Apoio escolar a crianças recém-chegadas à Suécia

Contextualização

Em 2015, um em cada cinco alunos do ensino básico na Suécia tinham uma língua materna que não o sueco e o número de línguas estrangeiras representadas na escola ultrapassavam uma centena (dados da Skolverket/Secretaria de Estado da Educação sueca, tradução livre). A realidade de professores e alunos espelhava já esta multiculturalidade e diversidade linguística, um desafio diário para todos.

 

O currículo sueco e as línguas maternas

O programa curricular para o ensino básico sueco tem os seus alicerces na ideia de que língua, aprendizagem e identidade estão intimamente ligados, e defende a promoção da aprendizagem com base nas experiências e conhecimentos prévios e idiomas dos alunos. O programa faz ainda uma apologia do multilinguismo como um recurso da sociedade e da escola, e do direito das crianças que adquiriram uma língua materna antes de entrar no ensino a ter apoio em casa e na escola para a desenvolver.

 

Que decretos-lei regem o apoio escolar em língua materna?

O apoio escolar em língua materna está previsto no 5 kap. 4§, do skolförordning.

 

 

Linguagem escolar vs. linguagem do quotidiano

Apesar do previsto no currículo, os estudos promovidos pelo Estado mostram que os alunos multilingues e os alunos nascidos fora da Suécia não atingem as metas curriculares como os restantes. De facto, quanto mais velhos são os alunos na altura da transição para a Suécia, piores tendem a ser os resultados obtidos na escola. Mesmo que a integração do aluno seja feita em condições ideais e o aluno aprenda a língua nacional (neste caso, o sueco) rapidamente, são necessários entre 4 a 8 anos para aprender a linguagem escolar (Thomas e Collier, 1997), que compreende termos e estruturas específicos para cada disciplina e se distingue da linguagem do quotidiano, a que o aluno recorre em contextos familiares e informais.

 

O apoio escolar em língua materna

É neste contexto que, em 2016, se decide reestruturar o apoio escolar em língua materna (em sueco, studiehandledning på modersmålet), de forma a colmatar as falhas detetadas na escola e melhor ajudar todos os alunos a cumprir as metas curriculares, criando oportunidades para que possam aprofundar conhecimentos em todas as disciplinas escolares, incluindo a língua sueca. Os alunos deverão aprender o Quê e o Como, ou seja, adquirir os conhecimentos relativos às disciplinas do nível de ensino em que estão inseridos e aprender a utilizá-los adequadamente, assim revelando o que sabem.

 

Quem tem direito ao apoio escolar em língua materna?

Todas as crianças com uma língua materna que não o sueco inseridas no ensino básico ou secundário na Suécia (em algumas regiões, também no ensino infantil) têm direito ao apoio escolar na sua língua materna ou na língua em que realizaram a escolaridade. Este direito é válido nos primeiros quatro anos de estadia no país, período em que as crianças são consideradas recém-chegadas.

O Estado decreta este direito, mas delega aos municípios a forma como as verbas atribuídas serão aplicadas, o que permite a existência de diferenças regionais no funcionamento do apoio escolar. Estas divergências são tanto mais visíveis nas escolas de gestão privada (friskolor).

 

 

Quem decide se a criança tem ou não apoio escolar?

É da inteira competência da escola decidir se a criança tem apoio escolar, sendo que nos primeiros dois anos é um direito adquirido, e nos restantes, determinado pela escola ou município.

Caso a escola assim o entenda, a criança terá apoio escolar, mesmo que tal vá contra a vontade dos pais ou encarregados de educação (e contrariamente ao que sucede com as aulas de língua materna, que devem ser solicitadas pelos pais).

Se o seu filho cumpre estes requisitos e não recebe apoio escolar, aborde a questão na escola.

 

 

Em que consiste o apoio escolar?

O apoio escolar varia de acordo com as necessidades do aluno, mas consiste geralmente numa hora semanal de trabalho com o professor de língua materna ou professor de apoio escolar (que pode ser o mesmo indivíduo), durante o período letivo.

O trabalho pode ser desenvolvido em diferentes formatos:
– antes das aulas, como preparação dos conteúdos a tratar na aula;
– durante as aulas, para facilitar a comunicação e o trabalho;
– depois das aulas, para esclarecer, rever, discutir, resumir e organizar conhecimentos.

Espera-se que, com o apoio escolar, o aluno consiga mais rapidamente aprender, discutir e refletir sobre os conteúdos tanto na língua utilizada na escola, como na sua língua materna. O trabalho desenvolvido constitui, pois, uma ativação e aprendizagem de conhecimentos nas duas línguas, devendo por isso ser realizado recorrendo ao sueco e à língua materna do aluno, de forma paralela. Além de adquirir conhecimentos específicos, o aluno aprenderá também a língua sueca e desenvolverá a sua língua materna.

Mais à frente exporemos alguns casos concretos.

 

 

 

Quais os objetivos do apoio escolar?

A função do apoio escolar está alinhada com a da escola sueca. Com ambos se pretende:
Qualificar os alunos;
– Prepará-los para a socialização;
– Contribuir para que se tornem indivíduos críticos, participativos e responsáveis.

Como vimos anteriormente, o tipo de apoio fornecido ao aluno deve adaptar-se às suas necessidades, podendo variar ao longo do tempo, de acordo com a avaliação contínua feita pelos professores em colaboração com o aluno. Apesar disso, não obstante a função geral do apoio escolar e as metas individuais que se traçam para cada caso, os principais objetivos deste trabalho são os seguintes:
– Utilizar a língua materna do aluno como um instrumento para desenvolver os conhecimentos do mesmo nas diferentes disciplinas.
– Facilitar a aprendizagem dos termos específicos de cada disciplina, possibilitando ao aluno a reflexão e discussão das matérias nas duas línguas.
– Preparar matéria específica que será mais tarde discutida na sala de aula.
– Fazer com que o aluno se sinta mais seguro dos seus conhecimentos e competências, assumindo um papel mais ativo na sua aprendizagem.
– Agilizar a integração do aluno na escola e na sociedade.

 

 

O que é necessário para que o apoio escolar tenha sucesso?

Para que o aluno receba o apoio de que necessita, há alguns pressupostos que, segundo a Skolverket, devem ser assegurados:
– Deve ser efetuada uma avaliação atempada e correta dos conhecimentos prévios do aluno.
– O apoio escolar deve ser planeado de acordo com a avaliação realizada e com as necessidades detetadas.
– O pessoal escolar deve possuir conhecimentos na área do multilinguismo.
– Entre o professor da disciplina/diretor de turma e o professor responsável pelo apoio escolar deve ser estabelecido um diálogo contínuo e eficaz.
– O professor responsável pelo apoio escolar deve:
• dominar tanto a língua materna como a língua sueca;
• estar a par dos conteúdos trabalhados pelo aluno nas diversas disciplinas;
• ter formação pedagógica;
• conhecer o sistema educativo sueco;
• desenvolver o trabalho com o aluno tendo sempre em mente os objetivos definidos.

 

 

 

O que é então importante trabalhar com os alunos no apoio escolar?

Saima Glogic, professora no concelho de Tyresö e especialista em apoio escolar, elaborou uma lista com os aspetos que, por facilitarem a aprendizagem e a integração do aluno na escola, devem ser trabalhados e discutidos com estes alunos. São eles não só de ordem pedagógica, mas também relativos aos códigos sociais e à cultura da escola sueca:
– Conteúdos estudados na escola sueca;
– Forma como aí se trabalha;
– Modelos de interação na turma;
– O papel do professor e o papel do aluno;
– Responsabilidade de cada um no processo de ensino-aprendizagem;
– Valores suecos;
– Mensagens implícitas.

Além de trabalhar conteúdos, é, pois, vital esclarecer o que é esperado do aluno e como se deve comportar para cumprir essas expetativas.

 

 

Como avaliar os conhecimentos dos alunos recém-chegados?

Para que a escola possa adaptar o ensino às necessidades e competências dos alunos recém-chegados, é fundamental avaliar os conhecimentos prévios destes o mais rapidamente possível.

No caso dos alunos que frequentaram o ensino básico ou secundário antes de chegar à Suécia, deve fazer-se um mapeamento de conhecimentos nos primeiros dois meses de escola. Este mapeamento é constituído por três etapas, com diversas entrevistas e exercícios, através dos quais se pretende estabelecer um perfil do aluno e averiguar os seus conhecimentos a nível dos idiomas que possui, da literacidade, da numeracidade e nas diferentes disciplinas.

Tanto as entrevistas como os exercícios são realizados na língua mais forte do aluno (que não é necessariamente a sua língua materna, por exemplo no caso das crianças que passaram por vários países e sistemas de ensino antes de chegarem à Suécia) e conta com a presença de um professor ou tradutor que domine essa língua e que facilite a comunicação. É com base nos conhecimentos revelados pelo aluno que o diretor da escola decide em que ano e turma colocar o aluno, e que o professor do aluno planifica as suas aulas. A seu tempo escreveremos um post dedicado apenas ao mapeamento.

Caso o aluno dê início ao seu percurso escolar na Suécia, o apoio é decidido e planeado em conjunto pelo professor do aluno e pelo professor de apoio escolar.

 

 

Casos concretos

Aqui apresentamos o caso de três alunos oriundos de países de expressão portuguesa que receberam apoio escolar em português. O trabalho desenvolvido foi sempre decidido na sequência de conversas tidas entre os professores, os pais e os alunos em causa.

Esperamos com estes exemplos clarificar os diferentes contornos que este trabalho pode assumir.

Os dados dos alunos foram alterados, de forma a proteger a identidade dos mesmos.

António, 6 anos, na Suécia há um ano, no ano zero do ensino básico (förskola klass). Conseguia brincar com os colegas, recorrendo por vezes ao inglês que aprendera no país de origem. Respondia adequadamente ao que lhe era solicitado pelos professores quer por entender parte do que diziam quer por imitar as ações dos colegas.

O trabalho foi desenvolvido no sentido de apoiar o processo de alfabetização do António, reforçando os exercícios realizados nas aulas e aprofundando em sueco conhecimentos que geralmente se esperam de uma criança desta idade e que se prendem com as áreas temáticas do quotidiano. Além do manual adotado pela escola, recorreu-se a jogos e literatura infantil sueca.

As aulas tiveram lugar ora na sala de aulas com a turma, ora numa sala à parte apenas com o professor de apoio escolar, dependendo dos objetivos a atingir no momento.

Paula, 7 anos, estava na Suécia há cerca de três anos e frequentava o 1º ano do ensino básico. A Paula já conseguia entender e fazer-se entender na maioria das situações na escola. No entanto, tinha um léxico sueco pouco desenvolvido e revelava dificuldades em compreender termos abstratos e na aquisição e compreensão da leitura. Apesar de não ter quaisquer problemas cognitivos, a Paula distraía-se facilmente, perdendo o fio à meada e não conseguindo concluir os exercícios atempadamente. Afirmava frequentemente estar a esquecer o português.

As horas de apoio foram dedicadas ao Sueco e à Matemática, numa sala à parte. O trabalho tinha início com a leitura de um capítulo do livro adotado para a turma, a sua discussão e exercícios de vocabulário e estruturas aí presentes. Preparava-se também o capítulo da semana seguinte.

Sempre que havia tempo, realizavam-se as tarefas de Matemática não concluídas durante a aula, sendo constantemente estabelecida uma relação com a língua materna: “Como se diz isto em português?”

Foram utilizados sobretudo os manuais adotados pela escola, por não restar tempo para mais.

Marcos, 15 anos, há cerca de um ano e meio na Suécia, frequentava o 9º ano do ensino básico. O Marcos dominava a linguagem do quotidiano, mas revelava dificuldades em utilizar a linguagem escolar, sobretudo por escrito. Tinha um pequeno círculo de amigos, quase exclusivamente estrangeiros, e queria voltar para o seu país. Não via, por isso, nenhum sentido em aprender sueco.

Numa sala à parte, eram concluídas tarefas de Sueco, História ou Geografia ou realizados os trabalhos de casa. Elaborou, com o professor de apoio escolar, uma pequena lista com os termos específicos de cada tópico estudado, em sueco e português, uma espécie de dicionário temático a que o Marcos recorria no dia a dia.

 

Que questões se levantam?

Apesar da legislação favorável e da vontade de todos os intervenientes de ajudarem o aluno no seu processo de aprendizagem e integração, há alguns obstáculos que continuam a verificar-se e que, de alguma forma, dificultam a realização do apoio escolar em língua materna. Destacamos, pela sua frequência, os seguintes:

– De ordem estrutural:
• Dificuldades de compatibilização do horário dos professores envolvidos, que fazem com que as reuniões necessárias se tornem um trabalho extraordinário e não remunerado.
• Falta de organização na atribuição de uma sala de aulas destinada ao apoio escolar, vendo-se o professor de apoio escolar e os alunos obrigados a procurar uma sala livre.
• Falhas na facilitação atempada ao professor de apoio escolar ao material usado nas aulas do aluno e à planificação do professor.

– De ordem pedagógica:
• Impossibilidade por parte de qualquer professor de dominar os conteúdos de todas as disciplinas de todos os níveis de ensino, contrariamente ao que por vezes se espera dos professores que desempenham estas funções e que podem dar apoio escolar a 20 alunos/turmas diferentes num único ano letivo.

Apesar destas dificuldades, não poderíamos deixar de ressalvar a enorme atenção que é dada na Suécia ao apoio escolar em língua materna e à adequada integração dos alunos de origem estrangeira. Tal é visível não só na atribuição de verbas e recursos humanos de 2016, como na constante formação dos docentes de todos os graus do ensino e na realização de pesquisa académica na área.

 

 

Conclusão

Não obstante os desafios que a realização do apoio escolar enfrenta, julgamos que o trabalho desenvolvido nesta área é de extrema importância quer no processo de ensino-aprendizagem dos alunos recém-chegados quer na sua integração na escola e na sociedade suecas. Este apoio é realizado tanto a nível dos conteúdos escolares e das metas curriculares a atingir, como a nível social e comportamental; e muitas vezes, só quando ele tem início, os professores das restantes disciplinas ficam realmente a conhecer o aluno que têm à sua frente, uma vez que até então não conseguiam avaliar corretamente os seus conhecimentos, competências ou necessidades. Também a nível do desenvolvimento profissional dos professores envolvidos são inúmeras as vantagens que podem surgir deste trabalho colaborativo e da troca de conhecimentos e experiências daí resultantes. Há, pois, que unir esforços e fazer o que está ao nosso alcance para ajudar os alunos recém-chegados a atingir todo o seu potencial.

 

 

Pode ler mais aqui, em sueco:

– material da Skolverket, aqui e aqui.
Nyanlända och lärande – mottagande och inkludering (2016). Nihad Bunar (red), Natur och Kultur, Stockholm.
– Nyanlända – Vägledning till inkluderande undervisning (2016). Saima Glogic, Annika Löthagen Holm, Hallgren & Fallgren.

 

 

Texto:

Catarina Stichini é professora há mais de vinte anos, tendo já lecionado do ensino infantil ao universitário. Em 2014, foi nomeada para o Prémio de Melhor Professor da Universidade de Estocolmo, na Suécia, país onde é atualmente professora de Português Língua de Herança. Dedica parte do seu tempo ao PortCast, uma plataforma para a aprendizagem de português através de podcasts. Tem um filho luso-sueco com 6 anos.

 

 

Revisão:

Mary-Anne Eliasson: PhD em Português, na área de Linguistica Aplicada, com foco em Aquisição Bilíngue. Atualmente Vice-Chefe da Unidade de Ensino de Língua Materna em Södertälje, Suécia.