O encontro inicial

Em agosto de 2017, a ilustradora portuguesa Ana Biscaia participou na Feira do Livro Infantil em Português na Suécia (FLIS) e, além de oferecer um workshop na feira, encontrou-se com um pequeno grupo de alunos de português (entre os 6 e os 12 anos) em Södertälje, nos arredores da capital sueca.

Destas crianças, nenhuma tinha participado na FLIS nem conhecia a obra da nossa convidada. A expetativa era grande e sabiam apenas que iam conhecer uma ilustradora e participar numa oficina.

Encontramo-nos na escola, numa das salas de Educação Visual, e Ana Biscaia começou a mostrar imagens de uma criança no meio de escombros com um livro na mão, e a contar como a ideia para “Que luz estarias a ler?” surgira. Leu o livro, conversou sobre ele com os alunos e pediu-lhes que imaginassem os dois amigos, Aysha e Kalil (personagens principais desta história), também eles crianças, num encontro hipotético, para além da morte, numa realidade paralela àquela, tão dura, de que nos falava, e que pintassem esse encontro.

A reação dos alunos foi tão forte que decidi trabalhar o livro nas semanas seguintes e aprofundar a sua discussão.

 

Um mundo ao contrário

Parece-nos difïcil explicar a uma criança que noutras partes do mundo, não tão longe de nós, se bombardeiam escolas, morrem crianças e as suas famílias. Podendo ser este o mote para o nosso trabalho, sugerimos contudo que “Que luz estarias a ler?” seja também utilizado para discutir o papel da literatura e o poder dos livros nos dias em que vivemos.

Curiosidades

Será talvez curioso referir que, contrariamente ao que geralmente sucede, “Que luz estarias a ler?” é um livro que teve a sua origem em desenhos, tendo o texto sido criado posteriomente para os ilustrar.

Em 2014, Ana Biscaia deparou-se com imagens tremendas dos bombardeamentos israelitas na faixa de Gaza, nos quais quase 500 crianças faleceram. Impressionada com algumas das fotografias dos escombros e dos sobreviventes, fez alguns desenhos. Nesse mesmo ano, participaria com essas ilustrações no Festival de Banda Desenhada de Treviso, tendo entretanto convidado João Pedro Mésseder a escrever um texto breve para essas imagens. Elas seriam, mais tarde, publicadas no catálogo do festival com o título Books and War. Só passado uns meses essas imagens receberiam cor e seriam publicadas pela Xerefé Edições sob o título “Que luz estarias a ler?” O processo criativo começou, pois, pelas ilustrações, tendo o texto surgido mais tarde.

Mas a invulgar história deste livro não termina aqui. Num dos encontros com alunos realizados pelos autores do livro, houve uma professora que decidiu trabalhar este livro com os seus alunos. Os alunos inventaram um final alternativo para a história do livro. Inventaram o sonho de Aysha, e neste sonho Kalil estava ainda vivo. Publicaram este texto numa revista da escola e pediram à ilustradora que fizesse uma ilustração para este sonho. Ana Biscaia acabaria por seguir o repto de alunos e professora e desenhar o sonho de Aysha. Mésseder olhou para este desenho e tornou a escrever sobre ele. O poema “O sonho de Aysha, menina palestina” e a ilustração integram a 3ª edição deste livro, em formato de postal. Esta obra tornar-se-ia uma consequência directa do exercício de leitura e imaginação dos seus leitores.

Plano Didático

Objetivos

Pretende-se que os alunos…

  • Reflitam de forma crítica e com compaixão sobre o mundo que os rodeia.
  • Aprofundem conhecimentos sobre a imprensa e o papel do livro ao longo da História, e sobre o processo criativo literário.
  • Discutam a situação das crianças em situações de guerra.
  • Discutam os seus hábitos de leitura.
  • Apresentem o seu livro preferido.
  • Escrevam um final diferente para uma história, recorrendo à imaginação.
  • Desenvolvam a área lexical relacionada com as temáticas.
  • Aprofundem o prazer pela leitura.

 

Antes da leitura

  1. Explore o título e a capa do livro com os alunos:

– Quem será esta menina? O que leva nas mãos? Como se sente?
– Reparem no título: o que quererá dizer? O que costumam vocês ler?
– Quem serão estas pessoas: João Pedro Mésseder e Ana Biscaia? Sabem alguma coisa a seu respeito?

  1. Discuta o processo criativo de um livro ilustrado e conte a história deste livro em particular:

– Como acham que geralmente se faz um livro? Por onde se começa? Como será?
– Se pensarmos, por exemplo, no livro X, como terá sido feito?
– Sabem como foi feito este livro? Deixem-me contar-vos… – mostre algumas das fotografias que serviram de base para os desenhos.

 

 

Durante a leitura

Leia o livro com os alunos e discuta:

  1. Onde fica Gaza? O que sabem sobre esta região do mundo? – usar um mapa/globo
  2. Por que terão morrido tantas crianças lá?
  3. O que sentem quando veem estes desenhos?
  4. Quem são os senhores que fecham escolas? Por que razão o fazem?
  5. Quem será que diz “E eu tenho medo.”?
  6. “Kalil gostava de livros.” Porquê?
  7. Qual é a situação descrita? Como será viver assim?
  8. Alguém gosta de livros? Porquê? De que tipo de livros? Quando leem? Onde?
  9. Que sucedeu a Aysha e a Kalil?
  10. Por que razão apanhou a menina livros no meio dos escombros?
  11. O que terá feito com eles?
  12. Por que pensou em Kalil?

 

Depois da leitura

  1. Discuta com os alunos a história da imprensa e o papel do livro ao longo da História. Para esse fim, sugerimos que use imagens de Gutenberg, da imprensa, de papiro, entre outros. O livro A história das invenções (p. 68-71), da Texto, tem 4 páginas dedicadas ao papel, à escrita e aos livros, que também podem ser úteis para esta discussão e servir de base para um eventual quizz sobre o tema.

Possíveis perguntas:
– Sabem quando foi feito o primeiro livro? Que livro foi esse? Como era? Quem o fez e como?
– Onde/como escreviam as pessoas antes da invenção do papel? Como comunicavam as pessoas entre si sem ser oralmente?
– Alguma vez viram um livro escrito numa alfabeto diferente do nosso?

 

2. Voltando ao “Que luz estaria a ler?”, peça aos alunos que preencham o Cartão de Identidade do Livro, da autoria de João Pedro Mésseder.
– De que página/desenho/parte do texto gostaram mais? Qual vos impressionou mais? Porquê?
– Descubram informação sobre João Pedro Mésseder e Ana Biscaia. No final do livro há algumas notas. Quem são eles? O que acharam mais interessante nas suas biografias?

 

– Escolham uma das duas alternativas e escrevam um texto:

  • Aysha sonha que encontra Kalil. Como é esse sonho? O que acontece? Onde estão?
  • Imagina que Kalil não morreu e procura livros nos escombros com Aysha. Escreve um final para a história.

 

  1. Quando lia, Kalil quase não ouvia “os estrondos, os tiros, os gritos ao longe, as sirenes. Era como se uma luz se acendesse no coração do escuro.

– O que sentem vocês quando leem?
– Há algum livro que gostem particularmente de ler ou que já tenham lido muitas vezes? Qual? Porquê?
– Como interpretam o título do livro agora?

 

  1. De acordo com o tamanho da turma, os alunos poderão apresentar oralmente ou por escrito o seu livro preferido, usando como ponto de partida o Cartão de Identidade do Livro.

 

  1. Leia a carta e mostre o sonho de Aysha, explicando a sua origem.

 

 

6. Depois de lerem e trabalharem o “Que luz estarias a ler?”, os alunos escreveram duas perguntas a João Pedro Mésseder:

Você ficou triste quando você escreveu o livro?
Foi difícil/complicado “achar” uma história, porque você recebeu as ilustrações primeiro?

 

E ficaram muito contentes quando receberam resposta!

 

Comentários dos alunos

Eis alguns dos comentários que os alunos fizeram ao longo deste projeto.

Durante a discussão do livro:
Kalil morreu mesmo?!
Eles [Aysha e Kalil] eram mesmo muito amigos…
Este é o desenho que gosto mais. Você pode ler?

Quando apresentaram os seus livros preferidos:
Eu gosto desse livro porque ganhei da minha professora, lá no Brasil. Ela falou que eu não podia jogar fora nunca.
Eu não sei ler. Esqueci a história, mas minha mãe lê para mim.
Eu gosto desse livro por causa dos detalhes. Tem uma espadinha pequena.
Eu já li esse livro um milhão de vezes e encontro sempre coisas novas.

Quando receberam um exemplar do livro, no fim do projeto:
É mesmo nosso?! Podemos levar para casa?
Vou dizer a minha mãe que fui eu que desenhei!
Acho que vou ler outra vez.

 

 

Como adquirir estes livros

Pode adquirir estes livros, escrevendo para [email protected] ou para [email protected]

Se viver na Suécia, este e outros livros de Ana Biscaia e de João Pedro Mésseder estarão à venda na Feira do Livro Infantil em Português na Suécia (FLIS), no dia 30 de setembro, na Engelska skolan norr, em Estocolmo. Durante o dia, decorrerão várias oficinas gratuitas (mas com lugares limitados) com João Pedro Mésseder e outros escritores e ilustradores de expressão portuguesa. Participe!

Já abordou estes temas com os seus alunos? Que livros usou? O que fez? Deixe-nos as suas sugestões nos comentários!

 

 

Catarina Stichini é professora há mais de vinte anos, tendo já lecionado do ensino infantil ao universitário. Em 2018, foi nomeada para o Prémio para a Promoção de Línguas Minoritárias e, em 2014, para o Prémio de Melhor Professor da Universidade de Estocolmo, ambos na Suécia, país onde é atualmente professora de Português Língua de Herança. Dedica parte do seu tempo ao PortCast, uma plataforma para a aprendizagem de português através de podcasts, e à FLIS – Feira do Livro Infantil em Português na Suécia. Tem um filho luso-sueco com 7 anos.