Brisa de verão
É tempo de amor flor
Doce o viver

Haicai de Gabriella Teixeira
Ilustração de Siri Anderson

 

 

Introdução aos haicais

A Literatura pode ser uma arte divertida e interessante. Brincando com as palavras, alguns poetas descobriram uma fórmula para escrever pequenos poemas, compostos por apenas três versos. Os Haicais, como ficaram conhecidos, são uma arte milenar e têm esse nome porque sua origem é japonesa:

Hai = Brincadeira
Kai = Harmonia

No Japão, o principal poeta haicaísta foi um homem chamado Bashô. Ele escrevia seus haicais em uma época em que escrever era uma das principais diversões e passatempos do homem japonês do século XVII. A métrica oriental (três versos, sendo que o primeiro e o terceiro verso são pentassílabos, ou seja, formados por cinco sílabas poéticas, e o segundo verso é heptassílabo, formado por sete sílabas) também encontrou representantes no Brasil, e o poeta Paulo Leminski foi um dos responsáveis pela popularização do gênero no país:

A palmeira estremece
palmas pra ela
que ela merece

casa com cachorro brabo
meu anjo da guarda
abana o rabo

 

A arte que nasceu no Japão também tem seu espaço no Brasil. Escrever um Haicai é um desafio e tanto!

tudo dito,
nada feito,
fito e deito

essa vida é uma viagem
pena eu estar
só de passagem

jardim da minha amiga
todo mundo feliz
até a formiga

Paulo Leminski

 

Características dos Haicais

Segundo Luana Castro, Escola Kids UOL, “A principal característica de um Haicai é a simplicidade, e você já deve saber que nas coisas mais simples habita o que há de mais belo, essa é a missão da poesia haicaísta: aguçar em quem lê o espírito contemplativo.

O Haicai é como uma fotografia instantânea de um momento que não voltará. É um poeminha sobre a sutileza em todas as coisas, mas que tem uma grande preocupação com a linguagem, já que conseguir encaixar as palavras na métrica é o principal desafio.”

Haikai, Haiku ou Haicai é então uma forma poética, de origem japonesa. No Japão são poemas tradicionalmente escritos em linha vertical, muitas vezes, acompanhados por uma pintura.

 

Os escritores de Haicais

Os escritores de Haicais são chamados de haijins. O principal haijin foi Matsuô Bashô, que viveu no século XVII, fazendo Haicais como prática espiritual. Teve muitos discípulos, o que gerou a expansão desse tipo de poema.

 

Segundo Masuda Goga, praticante e estudioso do Haicai, o primeiro autor brasileiro dessa forma poética foi Afrânio Peixoto, em 1919, através de seu livro, Trovas Populares Brasileiras, no qual escreveu: “Os japoneses possuem uma forma elementar de arte, mais simples ainda que a nossa trova popular: o Haicai, palavra que nós ocidentais não sabemos traduzir senão com ênfase, é o epigrama lírico. São tercetos breves, versos de cinco, sete e cinco pés, ao todo dezessete sílabas. Nesses moldes vazam, entretanto, emoções, imagens, comparações, sugestões, suspiros, desejos, sonhos… de encanto intraduzível”.

 

Os Haicais no Brasil

Guilherme de Almeida, escritor brasileiro do início do século XX, foi um dos grandes responsáveis pela popularização do Haicai no nosso país, tendo produzido algumas alterações na sua forma original, como a introdução de título e rimas. Assim, no Brasil, o Haicai assumiu feições próprias, abordando também outros temas, como questões do cotidiano, sentimentos e até humor, como fez o grande Millôr Fernandes.

Foi na década de 1930 que aconteceu o intercâmbio e difusão do Haicai entre haicaístas japoneses e brasileiros, constituindo-se, assim, outro caminho do Haicai no Brasil.

O movimento concretista brasileiro, oficialmente inaugurado em 1956 por Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, tinha como uma de suas mais polêmicas palavras-de-ordem a abolição do verso e a sua substituição por estruturas ideogramáticas, nas quais os poemas seriam compostos pela organização espacial de palavras e letras no espaço de papel, os chamados poemas concretos.

Paulo Leminski, escritor paranaense muito conhecido e morto precocemente (1944-1989) foi outro grande haicaísta brasileiro, que fez escola pela originalidade e estética de sua produção.

Interessante observar que a primeira mulher a publicar um livro de Haicais no Brasil foi Fanny Luíza Dupré, em fevereiro de 1949, intitulado Pétalas ao Vento – Haicais. Atualmente, muitas mulheres dedicam-se ao Haicai, dentre elas, a poetisa Alice Ruiz, que foi casada com Paulo Leminski.

 

Plano de aula: Haicai, grandes momentos, pequenos versos

INÍCIO: Interação com a forma poética japonesa: conhecer, ler e produzir Haicais.

NÍVEL DE ESCOLARIDADE: 1º ao 9º ano, adaptando o nível de dificuldade dos exercícios propostos

MATERIAIS: Literatura escolhida para a leitura, dicionário ilustrado, IPAD, lápis colorido ou aquarela, textos diversos, papeletas com haicais escritos, giz colorido, bloco de anotações, lápis ou caneta, folhas de papel A4 e A3 e de papel pardo.

DURAÇÃO: 4 aulas

OBJETIVOS:

  • conhecer e explorar a forma de expressão poética japonesa,  o Haicai
  • produzir um Haicai em grupo e um de autoria própria
  • identificar e criar rimas
  • trabalhar divisão silábica
  • enriquecer o léxico relacionado com a temática da Natureza
  • desenvolver a capacidade de expressão escrita e artística sobre a temática

 

AVALIAÇÃO: através da produção do Haicai, será avaliado o desenvolvimento e desenvoltura da língua na modalidade oral e escrita, participação e envolvimento do aluno durante as atividades.

 

DESENVOLVIMENTO:

Momento 1 – Desvendando o enigma dos Haicais!

  • Apresentar diferentes tipos de Haicais para os alunos, por exemplo recorrendo ao site de Millôr Fernandes, Haikai. É possível também, encontrar diversos vídeos no YouTube sobre Haicais que podem ser aproveitados em aula para apresentar o tema.

Algumas sugestões:

 

A alegria 
É toda feita 
De melancolia.

Millôr Fernandes

***

Ao sol da manhã
uma gota de orvalho
precioso diamante.

***

Primeira chuva de inverno
O macaco talvez queira
Uma capinha de palha.

Matsuo Bashô

 

Momento 2 – Leitura em voz alta dos livros com os alunos: o professor deve ler até 5 Haicais por aula. Determine alguns minutos após a leitura para apreciar e observar as ilustrações que seguem o poema.

Momento 3 – Perguntas para discutir com os alunos – sugestões:

  • Você já leu ou ouvir falar sobre Haicai? Conte-nos sua experiência.
  • Você consegue relacionar um dos Haicais apresentados na leitura com algo que você viveu ou conhece?
  • Quais as palavras citadas nos poemas que você não conhece?
  • Qual Haicai você gostaria de recitar? Justifique e faça a leitura.
  • Você gostou das ilustrações que seguem os Haicais? Justifique.
  • As ilustrações estão relacionadas ao texto? De que maneira isso acontece na sua opinião?
  • Quais as semelhanças entre os textos apresentados?
  • Consegue identificar rimas nos Haicais? Quais?
  • O que seria uma sílaba? E a divisão silábica?

 

Momento 4 – Ler a introdução sobre a origem dos Haicais com os alunos.

  • Durante a leitura, pedir que eles sublinhem algumas palavras-chaves no texto e circularem as palavras que eles ainda não conhecem o significado.
  • Depois da leitura, disponibilizar para os alunos alguns minutos para perguntas.
  • Mostrar aos alunos a forma original característica do gênero e trabalhar a divisão silábica com exercícios gramaticais.

 

Momento 5 – Após conhecer e explorar esses diversos Haicais, realizar a produção de texto.

  • A professora escolhe o tema. Exemplo: natureza. Em conjunto, professora e alunos decidem sobre o que irão escrever, deve estar relacionado ao tema. Exemplos: se o tema é natureza; pode-se escrever sobre sol, vento, chuva, lua, flor…
  • Elaborar juntos um quadro de palavras necessárias para escrever o Haicai, separando-as por sua classe gramatical.

  • Após pronto o poema, realizar a leitura em voz alta e verificar se é preciso fazer alterações.
  • Ilustrar o Haicai em folha A4 ou papel pardo para exposição. Colorir com aquarela.

 

Momento 6 – Produção individual

  • Pedir para os alunos escreverem os seus próprios poemas, seguindo os modelos que eles conheceram. Fica livre o uso das rimas e a quantidade de sílabas sonoras, isso seria uma decisão do escritor ou escritora.
  • Mostrar de novo aos alunos a forma original característica do gênero e trabalhar a divisão silábica com exercícios gramaticais. A forma do poema em três versos e o tema natureza são condições que devem ser seguidas. Auxiliar e orientar cada aluno, principalmente com o vocabulário e incentivá-los a procurar por palavras que rimam entre si.
  • Por último, passar os haicais para folhas A4 e pedir que ilustrem seus textos para exposição.

 

 

Sugestões para trabalhar haicais no Momento 5, alunos do 1º ao 4º ano

 

  • Escolher um tema, por exemplo: verão.
  • Apresentar o vocabulário sobre este tema, discutir com os alunos e pedir sugestões sobre as palavras relacionadas com o verão.
  • Brincar com o vocabulário! Explorar o vocabulário e a classe gramatical das palavras. Crie um quadro de palavras. Exemplo:

 

Sol leitura árvore nuvem  sorriso cheiro bolo flor azul ensolarado amarelo laranja abelha lagarta borboleta mar verde imensidão alegria saudade amigos menina menino família floresta festa comida frutas  grama brisa lágrima manhã sorvete bola jogo encontro amor carinho amizade tarde noite luar praia barulho voz intenso suave doce chuva tempestade conforto café ilusão sonho fantasia eu você é  encontrar fazer sentir sinto sou ser nós eles elas ela ele meus minhas sua seu os as a o sonho um uma uns umas alguns verão primavera viver amar somos tempo transforma sutileza delicadeza da do de iluminam cidade ondas caminho olho céu azul nascer adeus dar dá dei fui ir irei irá foi senti amores som silêncio ventania pássaros  natureza renasce impressionante emocionante tocante beijo beijos que lhe dei caminho caminhar areia branca negro estrelas lua escuro estrelado está estou estamos apaixonar crianças brinca corre esconde bicicleta anda rua sem fim roda pedalo pedala viajar cores arco-íris lilás colorida somos são dançar melodia felicidade liberdade pássaros

 

  • Roda de perguntas – conversa sobre o tema escolhido.
    – O que é o verão para você?
    – O que você mais gosta no verão? Conte-nos uma memória de verão.
    – O que acontece com a natureza durante este período?
    – Como seria o verão de seus sonhos?
    – Das palavras apresentadas no quadro, quais você já conhece e o que significam? Quais palavras você não conhece?

 

  • Trabalhar as palavras desconhecidas, disponibilizar na aula um dicionário ilustrado para pesquisa.
  • Mostrar diversas fotos sobre o verão como: paisagens, roupas de verão, atividades que fazemos no verão, o clima no verão.
  • Pedir para que os alunos escolham uma foto ou desenhem algo sobre o verão que eles acreditam ser importante.
  • Montar com os alunos um quadro de palavras relacionadas ao desenho.
  • Apresentar a introdução sobre haicais e fazer a leitura de diferentes poeminhas. Fazer uma busca de novos exemplos de haicais na Internet pode tornar a aula mais divertida.
  • Montar os versos no estilo do Haicai. A produção pode ser em conjunto ou individual, sempre respeitando e explorando as ideias dos alunos.
  • Passar o verso e a ilustração para uma folha A3 para exposição e colorir com aquarela.

 

 

MATERIAL EXTRA: Para o apoio na construção dos Haicais e para deixar a aula dinâmica e divertida, sugiro a utilização do site Storybird.

O banco de ilustrações do site é incrível e estimula a criação. Cadastre-se e explore o site antes de trabalhar com os alunos.

 

Bom trabalho!

 

Olhos
Tropeçando nas nuvens,
aturdidos de alegria

João Pedro Mésseder
Olhos tropeçando em nuvens e outras coisas – Haicais ou quase
Ilustrações de Rachel Caiano

 

Fontes de Referência

  • Oficina Diálogos Literários- parceria entre o Centro Cultural CEEE Érico Veríssimo e a L&PM Editores, com a doutoranda Gabriela Silva.
  • Revista Brasileira de Haicai
  • Sumauma
  • Os Dez Mandamentos do Haicai

 

Gabriella Teixeira é formada em Comunicação Social e trabalha como professora de Português como Língua de Herança na Suécia. Apaixonada por literatura infantojuvenil, em 2015, criou o projeto, Cantinho da história na Suécia, onde realiza diversas contações de histórias em português nas bibliotecas de Estocolmo e também em Uppsala.