Um dos exercícios mais difíceis para qualquer pessoa que toma a decisão de aprender a língua portuguesa é o exercício de compreensão oral. Sinceramente, é um exercício difícil no caso de qualquer língua estrangeira. No entanto, como qualquer atividade com nível de dificuldade bastante elevado, traz os maiores benefícios a longo prazo.

Pessoalmente, achei sempre difícil passar o tempo a ouvir um programa de rádio, um podcast, ou até ver um programa TV numa língua estrangeira, no início, porque não conseguia distinguir as palavras. Basicamente, tinha sempre a impressão de estar a ouvir uma cadeia de sons sem fim – fazia depois um esforço cognitivo fantástico e esperava vir a identificar pelo menos uma palavra desconhecida mas, na maioria dos casos, ao chegar ao final da gravação, dava-me conta que o único objetivo alcançado tinha sido a diminuição considerável dos recursos de energia.

Felizmente ou infelizmente, de acordo com o caráter da situação e a maneira de encarar as coisas, tenho sofrido, desde pequena, de um síndrome relativamente comum, fácil de diagnosticar, que se chama “excesso de zelo”. Manifesta-se como uma teimosia extrema causada pelo desejo de levar a cabo, inclusive e sobretudo, os exercícios mais inúteis que alguém possa pensar. Por isso, ao insistir na ideia de que se ouvir algo durante tempo suficiente, é certo que chegarei a descodificar pelo menos o tópico da discussão, consegui e assim foi!

Atenção: isto não quer dizer que se começarmos a ouvir gravações em japonês, amanhã vamos acordar fluentes em japonês! Nem pensar! Isto quer dizer sim que um exercício regular de audição, que acompanha a leitura de textos e a compreensão das regras de funcionamento da língua-alvo (o eufemismo utilizado destina-se àqueles que têm dores de estômago ao ouvirem a palavra gramática), ajuda-nos a ter um progresso mais rápido e confere-nos flexibilidade nos pensamentos.

E eis porquê:

1. Com a prática, conseguimos identificar as palavras numa cadeia sonora – a parte mais difícil, sobretudo quando estamos no início do caminho e a capacidade de concentração é bastante diminuta. Isto não quer dizer que nos devamos afastar dos materiais autênticos, ou seja filmes, programas de televisão ou podcasts, simplesmente porque apresentam um nível de dificuldade bastante elevado. Pelo contrário, teremos mais satisfação ao percebermos o sentido das frases autênticas. Um pouco de paciência, diria eu!

2. Conseguimos ver a língua-alvo num dado contexto – vamos pressupor que optamos por aprender certas palavras que pertencem ao campo lexical da jardinagem. Um programa ou até um podcast sobre jardinagem oferece-me a possibilidade de seguir esse vocabulário em ação, porque está a ser utilizado num contexto adequado, natural, sem artificialidade. Mais do que isso, consigo antecipar facilmente os sentidos das palavras, dado que é certo que num programa sobre como organizar um jardim no terraço terei basicamente o vocabulário em questão, e não vão aparecer, de repente, elementos de física quântica.

3. As situações pragmáticas tornam a vida mais fácil – o contexto, sobretudo no caso dos programas de televisão, desempenha um papel importantíssimo, ou seja, ajuda com a simplificação do processo de descodificação da mensagem oral. A interação entre os falantes, os gestos, a mímica, o tom – todos esses elementos desempenham um papel importante que me ajuda a identificar o tema da discussão, sem ficar parada a pensar que preciso de compreender cada palavra.

4. Enriquecemos o vocabulário – aconteceu-me mil vezes encontrar uma palavra nova, cujo sentido consegui identificar a partir do contexto ao basear-me no vocabulário que já dominava e que funcionou como um marco miliário. As coisas tornam-se ainda mais agradáveis se aquela palavra for repetida não apenas uma vez, mas várias vezes na mesma gravação – desta forma, o contexto muda, portanto tenho a possibilidade de ver uma palavra nova em contextos diferentes e verificar o seu sentido e, portanto, avaliar o meu raciocínio. Feedback imediato, gratificação instantânea.

5. Reativamos vocábulos conhecidos – um aspeto fortemente ligado ao ponto anterior, porque através da ativação do vocabulário prévio, posso descobrir, através da inferência, o sentido de novas palavras. Isto traz benefícios em várias frentes: primeiro, consigo evitar a utilização do dicionário a cada passo e, segundo, é uma maneira de reforçar os conhecimentos prévios. Além disso, o nível de auto-estima cresce a ritmo galopante.

6. Temos controlo e liberdade ao mesmo tempo – porque a tecnologia me permite, tenho a possibilidade de andar em qualquer sentido, sem contra-ordenação, ou seja, posso ouvir a gravação o número de vezes que quiser, posso escolher ouvir uma única sequência várias vezes, posso ignorar a parte que me aborrece, posso fazer alterações na velocidade, etc. Claro, se não se tratar de uma transmissão ao vivo. A gestão dos limites pertence-me por completo, na medida em que estou disposta a fazer um esforço mínimo. Mais do que que isso, gozo da liberdade de escolher gravações sobre tópicos que me interessam, o que torna esta atividade ainda mais agradável.

A propósito disto, ouvir é um exercício que acontece em duas etapas: ao ouvir pela primeira vez (top-down) identifico o(s) tema(s) da discussão e familiarizo-me com o ritmo. Ao ouvir pela segunda vez (bottom-up) posso começar a pensar em identificar os pormenores, interpretar o conteúdo e assim por diante. Portanto, não tenham receio de carregar no botão play várias vezes.

É óbvio que as ideias reveladas acima não constituem uma lista exaustiva dos benefícios do exercício de escuta. Independentemente do tipo de material escolhido para fazer o exercício, seja este concebido com um objetivo didático, seja ele autêntico, é importante não desistirmos imediatamente e utilizarmos todos os recursos que temos para percebermos do que se trata. Afinal de contas, antes de falar é importante escutar e todos nós sabemos que isso pode ser difícil até na nossa língua materna.

É por todos estes motivos que recomendo fortemente PortCast, o melhor amigo português dos fãs de podcasts, que me tem acompanhado ao longo de muitas aulas e sobre o qual poderão ler um artigo aqui.

Até breve e, caso tenham sugestões de podcasts, não hesitem em deixá-las num comentário abaixo.

Este artigo foi originalmente publicado em romeno, aqui.

Cristina Nitu é membro fundador da associação Fala Português!, organização não-governamental sediada em Bucareste, Roménia, que promove a língua portuguesa através de projetos com caráter cultural e educativo. Formou-se na Faculdade de Línguas e Literaturas Estrangeiras da Universidade de Bucareste, onde estudou Filologia, na secção Português-Inglês. Tem mais de 7 anos de experiência na área da cultura e da educação.