Ler mais e partilhar a leitura nas férias que se avizinham

Dantes havia um coisa chamada Enciclopédia

Vai fazer um ano que levei uma turma de alunos de 11.° ano à biblioteca de Västerås para uma atividade. Estávamos então a começar um projeto bastante abrangente sobre diversos movimentos literários, que, entre outras coisas, consistia em pesquisar e juntar dados. Eu receei que os meus raios de sol (sim, eu cumprimento os meus alunos no início das aulas chamando-lhes ”sunshines”) se limitassem a buscar informação na internet, com a pequena grande tentação de fazer um deselegante Copiar – Colar. Com isso, perderíamos alguns dos objetivos principais do projeto; e desaproveitaríamos a oportunidade de contar porque é que se chama Wikipedia à Wikipedia. “Noutros tempos havia bibliotecas com uns tomos grossos nas prateleiras e a esses se chamava Enciclopédia.” A surpresa!

 

O ilusionismo de… ir mais à biblioteca

Aconteceu nessa visita que um aluno quase me tomou por ilusionista por eu ter encontrado o exato volume onde ele encontraria a entrada sobre William Shakespeare. “Como sabias que era esse?”
”Então, porque está organizado por ordem alfabética. Sh- está depois de Sartre, não é?”

Os olhos verdes e surpreendidos do aluno fizeram-me compreender dois aspetos: o primeiro, ainda é possível fascinar adolescentes do mundo contemporâneo com uma ida à biblioteca; o segundo, as idas às bibliotecas precisam, urgentemente, de tornar a ser um hábito dos nossos alunos. Ver, tocar, cheirar e ler livros é muito mais desejável do que a tardia revelação de que existe um método de ordenação alfabética

As epifanias não se ficaram por aqui: há que ver o encanto de jovens que aprendem a consultar um índex ou um glossário e que compreendem por que é importante ter uma bibliografia organizada! Pode ter sido, pelo menos até hoje, uma das experiências mais ricas de aprendizagem que ajudei a proporcionar.

 

A nossa ideia – ler livros, falar de livros, testemunhar a leitura

Quase um ano depois deste episódio, falo com as extraordinárias amigas deste nosso PortCast e todas vemos a necessidade do contato com os livros na idade mais tenra possível. Todas constatamos que é vasta a lista de razões pelas quais é necessário LER, e para além disso, ter livros em português disponíveis nas bibliotecas.

Por outras palavras, por muito que haja disponíveis alternativas tecnologicamente mais avançadas, é fundamental insistir na vivência insubstituível de estar perto de livros e deixar crescer a curiosidade por eles e pelos seus conteúdos (as palavras, as ilustrações, as personagens, as emoções, a imaginação).

Com esta urgência de ler no pensamento, vemos aproximarem-se as tradicionalmente chamadas ”höstlov” (férias de Outono na Suécia). Nos últimos anos, no entanto, foi lançada uma campanha que as vem transformando em ”läslov” – férias para leitura -, ideia que nos parece não apenas necessária, mas também divertida.

Inspiradas por esta iniciativa, assim como (e sempre!) pela maravilha que é ler na linda língua portuguesa, as amigas do PortCast querem lançar um projeto que precisa de colaboradores especiais no desafio inicial: as crianças, embaixadoras fundamentais do Português Língua de Herança.

 

O que propomos fazer, e quando?

De 30 de outubro a 19 de novembro, gostaríamos de receber pequenos vídeos com testemunhos das vossas crianças em que nos mostrem e nos falem do seu livro preferido (em português). Qual o título, quem escreveu e ilustrou, qual é a história, porque gostam tanto e com quem costumam lê-lo? Seria fantástico testemunhar também se esse livro se encontra na biblioteca mais próxima, e se não for esse o caso, exprimam sem receio o desejo de poder ter acesso a ele. Aceitaremos, em alternativa, fotografias das crianças a ler – tudo pela divulgação da leitura e da importância de viver entre páginas de estórias.

Num primeiro momento, e com a devida autorização, vídeos e fotos serão publicados no blogue PortCast. Mais tarde, os testemunhos das crianças poderão vir a ser convertidos em objetivos e fundamentos de um outro projeto promotor de leitura e de circulação de livros entre bibliotecas.

Podem enviar-nos o que preferirem entre as datas acima referidas através da página de Facebook do PortCast (via mensagem). Confirmem-nos, por favor, a autorização para a publicação: basta escreverem uma mensagem com essa nota.

E vamos ler!!!

 

Créditos

Foto da capa: Catarina Bandeira

Foto do texto: Catarina Stichini

 

Vera Guita é professora desde 2004, na Suécia desde 2011, e conta com experiência desde o primeiro ciclo a cursos para adultos. Tem vários interesses, entre eles a música, que tenta colocar em diálogo com o trabalho na escola. Não pôde recusar a colaboração com PortCast e este blogue, porque é um projeto necessário à muito querida Língua Portuguesa e um bom meio para refletir sobre aprender e ensinar: enfim, sobre comunicar.

Catarina Bandeira é desde muito cedo apaixonada por Fotografia, tendo concluído a Licenciatura na Universidade Lusófona, em 2015. Após estágio na Agenda Cultural de Lisboa, entrou, ainda nesse ano, ao serviço do Estúdio Fotográfico Studio8A. Aqui realizou trabalho de estúdio, fotografou eventos e orientou workshops de fotografia e Photoshop. É fotógrafa independente.