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Abordagem ao conto de António Mega Ferreira, em que a curiosidade pode enriquecer o vocabulário e a cultura geral

Deixamos a curiosidade em espera no meu último texto, não foi? Ficaram questões no ar, o que é bom. Querer chegar ao conhecimento depende bastante disso mesmo: ter perguntas a aliciarem respostas e mais perguntas. Vamos voltar, então, à vontade e à esperança de saber mais.

Vejamos: estamos na sala de aula com os alunos, ou em casa com os filhos, a ler um texto, e nele há palavras novas, difíceis, bem como piadas, referências a quadros, a obras musicais ou a personagens de outros livros. Que fazer? Ignorar? Ou estimular a curiosidade, perguntando, Repararam nesta palavra? Sabem o que quer dizer? E se ouvíssemos esta música de que se fala aqui na página X? Há uma estória de António Mega Ferreira ótima para experimentar este cenário.

 

Um grilo que fala e ensina classes de palavras

Ilustração de Fernanda Fragateiro

 

As Palavras Difíceis é um livro publicado em 2005 pela Assírio & Alvim, em cuja narrativa se encontram personagens de diversas estórias e histórias. Por isso mesmo, cedo surge a palavra anacronismo, vocábulo difícil da língua portuguesa, e que o narrador julga tratar-se de uma Ana desconhecida com um estranhíssimo apelido. Instalada que está a curiosidade do narrador (e a do leitor) sobre a Ana Cronismo, está também dada a razão para mergulhar numa biblioteca onde se falará de classes de palavras, de equívocos da língua portuguesa e de obras literárias de referência.

 

Plano para crianças a partir dos 11 anos e jovens

Este plano requer certamente mais do que uma aula. A leitura pode ser interrompida várias vezes por múltiplas atividades. As seis sugestões que aqui vão ser deixadas são apenas uma inspiração, e a ordem para a sua realização é bastante aleatória.

1) Antes de ler o livro ou excertos dele:
– Pergunte aos alunos o que o título lhes sugere.
– Apresente uma lista de palavras difíceis e de títulos de obras. Por exemplo: anacronismo; pulular; vitupério; discernir; Os Três Mosqueteiros; Vida e Aventuras de Robinson Crusoe, etc. Conhecem o seu significado? Sabem que obras são? Senão, o que fariam para ficarem esclarecidos? Consultar um dicionário? Perguntar a um adulto? Procurar no Google? Esteja preparado para dar respostas sobre a sua lista.

2) Agora, tempo de ler As Palavras Difíceis. Diversifique as formas de leitura:
– leia em voz alta para os alunos;
– deixe-os ler trechos em voz alta uns para os outros;
– leitura em silêncio, para depois recontar ao grupo sobre o avanço da narrativa.

Discuta sempre as passagens lidas colocando questões, sobretudo relativas ao possível vocabulário novo ou a referências. Por exemplo: de que estória vem o Grilo Falante? E a Alice? O que terias pensado/sentido se estivesses no lugar do narrador da estória?

Pré-selecione trechos a que queira dar especial importância. Por exemplo:
[o Grilo Falante] “Mas, cuidado, os dicionários são uma armadilha, com aquelas palavras todas. Há quem se perca por entre milhares de palavras, quem demore anos para sair do labirinto, e há até quem tenha desaparecido no meio da selva de palavras difíceis. É que nem todas as palavras que estão no dicionário se podem usar.
«Pois não», disse o Coelho Branco, que nesse momento atravessava a sala apressadamente, com um monte de folhas de papel nas mãos. «Por exemplo, é conveniente evitar as seguintes formas verbais: dissuado, ponhamos, haverão, ajamos, peçamos, discirno, compila…»
«E os substantivos», disse o grilo, «não te esqueças dos substantivos».
«Pois, como postura, concubinato, vitupério, catadura, predecessor, procela…»
E desapareceu na estante, entre Os Três Mosqueteiros e A Ilha do Tesouro.”

– Que personagens estão envolvidas nesta passagem e de que obras originais vêm?
– As palavras podem mesmo ser uma selva? O que quer o Grilo disso com isto? (explorar o valor da metáfora)
– Que palavras são “estranhas” para os alunos? Esclareça-as.
– Que obras são as que estão na prateleira? (Se puder, tenha uma cópia dos livros para mostrar aos alunos, ou uma imagem das capas, e uma breve sinopse.)

 

 

3) Dependendo das características do seu grupo de alunos e do nível de conhecimento, o excerto acima pode ser uma boa oportunidade para abordar classes de palavras.

Prepare uma cartolina com 3 colunas: 1) verbos; 2) substantivos; 3) adjetivos. Prepare também, em múltiplos pedaços de papel, exemplos das três classes, retirados ou não da estória. Coloque os papéis dentro de uma caixa ou bolsa, só para incitar a curiosidade ainda mais. Após uma definição/exemplificação de cada uma das classes, peça aos alunos que retirem palavras da caixa e as coloquem na coluna certa da cartolina.

4) É possível construir frases com as palavras na cartolina? Faça-os escrever algumas, mesmo acrescentando outras palavras necessárias. Deixe-os ler as suas frases em voz alta. O resultado desta atividade pode ser acrescentado ao pequeno livro iniciado no plano do post anterior (Curiosidade e Outras Curiosidades, 2 de junho).

5) Hora da Selva/Hora do Labirinto – um jogo.
Esconda na sala de aula (ou outros locais) múltiplas palavras difíceis, retiradas de um dicionário, escritas em pequenos cartões. Tenha disponíveis em cima de uma mesa alguns exemplares de dicionários , bem como uma folha de papel para cada aluno. Instrua os alunos: cada vez que encontrarem um cartão, devem ir procurar o seu significado num dicionário e escrever na folha a palavra do cartão e os sinónimos. “Ganha” quem tiver reunido mais palavras num período de cinco a dez minutos.
Cada aluno partilha com os restantes as palavras que encontrou.

6) Peça agora a cada aluno uma lista de cinco ou mais palavras polissilábicas que lhes sejam familiares. Desafie-os a desconstruir os vocábulos por sílabas e a reconstruí-los numa ordem diferente. Proponha que levem os vocábulos inventados para casa e que testem a curiosidade da família pedindo significados para as ”novas palavras”.
Também os resultados desta atividade podem ser incluídos numa secção do livro (Curiosidade e Outras Curiosidades, 2 de junho).
(Esta atividade foi usada no plano do post anterior, mas também neste contexto faz sentido.)

A didatização de um livro abre inúmeras possibilidades à curiosidade. Difíceis não são as palavras; difícil é delimitarmos a esperança de um livro combater o desconhecido.

 

As palavras difíceis

António Mega Ferreira
Ilustrações de Fernanda Fragateiro
Publicações Dom Quixote
Pode encontrá-lo aqui.

 

Outros textos de Vera Guita

Curiosidade e Outras Curiosidades
Vera: de Montemor-o-Novo para Västerås

 

Créditos

Imagem de destaque e foto: Catarina Bandeira

 

Vera Guita é professora desde 2004, na Suécia desde 2011, e conta com experiência desde o primeiro ciclo a cursos para adultos. Tem vários interesses, entre eles a música, que tenta colocar em diálogo com o trabalho na escola. Não pôde recusar a colaboração com PortCast e este blog, porque é um projeto necessário à muito querida Língua Portuguesa e um bom meio para refletir sobre aprender e ensinar: enfim, sobre comunicar.

 

Catarina Bandeira é desde muito cedo apaixonada por Fotografia, tendo concluído a Licenciatura na Universidade Lusófona, em 2015. Após estágio na Agenda Cultural de Lisboa, entrou, ainda nesse ano, ao serviço do Estúdio Fotográfico Studio8A. Aqui realizou trabalho de estúdio, fotografou eventos e orientou workshops de fotografia e Photoshop. É fotógrafa independente.