Escolha uma Página

O actor e escritor André Gago visitou Estocolmo em junho. Trouxe consigo “A Flor do Lácio”, um espectáculo de poesia e música que, em quarteto, celebra a Língua Portuguesa. Aquela que gostamos de ler, ouvir, falar e escrever.

Pouco tempo antes desta visita, tínhamos escolhido da prateleira, para uma releitura, O Circo da Lua, conto escrito por este autor e ilustrado por Marina Palácio. Distinguido com o Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores 2000 e Prémio de Ilustração Festival de BD da Amadora 2003, O Circo da Lua estava a ver ser publicada a sua 7.a edição justamente em junho, e mantém o seu lugar entre a seleção do PNL (Plano Nacional de Leitura).

A FLIS tinha perguntas para o André. O André respondeu-nos e aqui fica a nossa entrevista.

Obrigada, André Gago!

 

André, falas outras línguas para além da portuguesa? E lês nessas línguas? O que significa, para ti, saber ler e comunicar noutras línguas?
Aprendi o francês quase como primeira língua, e o inglês também ainda em criança. Depois, desembaraço-me em castelhano e italiano. A capacidade de aprendizagem de outras línguas é plena nos primeiros anos de vida, a apreensão dos sons é fácil e intuitiva.

É curioso observar como parecemos pensar de maneira diferente quando nos exprimimos noutra língua, como se cada uma estabelecesse um padrão de raciocínio e de ânimo distintos. E, depois, há o acesso às fontes, aos originais, e a possibilidade de consultar documentos, até mesmo em línguas que não dominamos de todo mas que têm raízes comuns, como a catalã ou o romeno, por exemplo.

 

O que sentes quando lês um livro? O que acontece? Sempre foi assim, ou essa relação com a leitura mudou com o tempo?
No essencial, penso que a experiência não se alterou assim tanto. Sou mais seletivo, não há tempo para ler tudo. Mas não sou um leitor compulsivo, devo confessar.

 

Quando eras pequeno, gostavas mais de palavras (de ler), ou de circo?
Sempre gostei muito das palavras. As palavras estão connosco, vinte e quatro horas por dia. O circo, só uma vez por ano (dando de barato outras apropriações do termo).

 

De onde vêm as histórias, André?
Das histórias que as precederam. Escrever uma história é, sobretudo, um acto de continuação de uma grande narrativa que vem do fundo dos tempos. Cada nova história é um corpo celeste de uma galáxia a perder de vista.

 

No Circo da Lua, as personagens agem, põem mãos à obra, e de um aparente problema surgem coisas novas, coisas boas. É esse espírito criativo e a necessidade de ver “o lado luminoso da lua” que inspira este livro?
Creio que sim. Está na natureza humana, a esperança, e dizem que é a última a morrer.

Como se põe mãos à obra para transformar hábitos de leitura?
Lendo em voz alta para os filhos. Lendo em voz alta para os pais, para os avós. E lendo coisas aparentemente inapropriadas para nossa idade.

 

Não podemos proteger os nossos filhos da literatura, quando eles estão expostos a tudo o resto: à violência das televisões, à agressividade da sociedade de consumo, à pornografia na internet. Então, nada como ser tocado por um poema forte, que nos deixa de boca aberta, porque não é o “ão-ão faz o cão”.

Eu posso estar uma hora a falar com alunos do 8º ano da maneira mais descontraída possível sobre literatura, para eles é uma seca. Mas, depois, leio-lhes um poema em que a cerveja parece mijo de cavalo, há uma cena de pancadaria e um protagonista que observa tudo porque é uma pessoa sensível, e eles acordam, arrebitam as orelhas e, no fim, vêm perguntar-me que livro é e onde o podem arranjar. Deve ser chato para os pais e para os professores que os estão a ensinar a escandir os Lusíadas, mas nesse momento eles despertaram para a literatura.

 

Quando pensas n’O Circo da Lua, que cenário imaginas para a sua leitura?
Já dirigi um espectáculo baseado no livro, com cenário e figurinos da Marina Palácio, mas adoro ver os trabalhos que são feitos nas escolas a partir deste livro.

 

Qual é a melhor coisa que pode acontecer a um escritor, um criador de histórias?
Ser lido, acho eu.

 

Que repercussões teve a publicação deste livro na tua vida?
Foi uma alegria, que perdura: a sétima edição foi publicada este ano.

 

Que outros autores da literatura infantil tens como referência?
A literatura para os jovens não é um terreno que eu conheça bem, para ser franco. Mas acho que se infantiliza a ideia de leitura até muito tarde. Eu li em voz alta o Huckleberry Finn do Mark Twain à minha filha quando ela teria uns sete ou oito anos e ela adorou, quer a história em si, quer a ironia subtil nela expressa.

 

Que livro infantil/juvenil gostarias de pôr em cena?
O Circo da Lua: já está feito.

 

Que conselhos darias à #FLIS?
Não dou conselhos, mas aplausos. E peço que não desistam, nunca.

 

A FLIS vai ter alguns exemplares d’ O Circo da Lua à venda, no dia 30 de Setembro, em Estocolmo. Acreditamos que, desse lado, ficam olhos com vontade de ler e ouvidos com vontade de escutar este conto!

 

Créditos

Fotografia da capa, de André Gago: Vasco Abranches Fotografia

Vera Guita é professora desde 2004, na Suécia desde 2011, e conta com experiência desde o primeiro ciclo a cursos para adultos. Tem vários interesses, entre eles a música, que tenta colocar em diálogo com o trabalho na escola. Não pôde recusar a colaboração com PortCast e este blogue, porque é um projeto necessário à muito querida Língua Portuguesa e um bom meio para refletir sobre aprender e ensinar: enfim, sobre comunicar.